Relação encontrada entre autismo e doenças autoimunes
A relação entre os hormônios sexuais e o sistema imunológico explica por que homens e mulheres apresentam respostas imunes e frequências de doenças autoimunes significativamente diferentes:
Testosterona como Imunossupressor: A testosterona (e outros andrógenos) atua reduzindo a intensidade da resposta imunológica do organismo.
Mecanismo de Ação: A testosterona inibe a proliferação e a atividade de diversas células de defesa, como os linfócitos T e B, além de diminuir a produção de citocinas pró-inflamatórias. Ela também favorece o aumento de células T reguladoras , que mantêm a resposta imune sob controle.
Efeito Prático: Homens tendem a apresentar menor incidência de doenças autoimunes. Em contrapartida, essa maior supressão imunológica torna o organismo masculino ligeiramente mais suscetível a infecções virais, bacterianas e parasitárias, gerando respostas de anticorpos menos vigorosas após infecções ou vacinações. Isso porque o organismo masculino tende a demorar mais tempo para combater uma infecção por causa da proteção da testosterona.
Já nas mulheres funciona de maneira diferente:
Estrogênios como Imunorreguladores (e o Risco de Autoimunidade)
O estrogênio: (especialmente o estradiol) atua potencializando a resposta imunológica. Ele não é simplesmente um "ativador", mas sim um modulador complexo que varia conforme a sua concentração no sangue.
Mecanismo de Ação: Em níveis fisiológicos normais, o estrogênio estimula a diferenciação e maturação dos linfócitos B (células produtoras de anticorpos) e melhora o desempenho das células T. Ele também aumenta a produção de citocinas que promovem respostas imunes humorais vigorosas.
Efeito Prático: As mulheres costumam desenvolver respostas imunes mais rápidas e potentes contra infecções e produzem níveis mais altos de anticorpos após vacinações.
O Lado Negativo: A autoimunidade em casos extremamente ativos, como o estrogênio estimula a proliferação de células de defesa e a produção de anticorpos, uma hiperativação desse sistema faz com que o organismo perca a capacidade de diferenciar as células do próprio corpo de agentes agressores externos.
Autoanticorpos: O excesso de estímulo sobre os linfócitos B leva à criação de autoanticorpos (anticorpos que atacam os próprios tecidos do corpo).
Prevalência de Doenças Autoimunes: Devido a essa base hormonal hiper-reativa, cerca de 80% dos casos de doenças autoimunes ocorrem em mulheres. Exemplos clássicos incluem o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), a Artrite Reumatóide, a Esclerose Múltipla e a Tireoidite de Hashimoto.
Isso realmente aconteceu com minha filha Caroline adulta (estava com 29 anos) e esse foi o motivo por não ter dado continuidade às postagens deste blog. Fiquei indo de um hospital ao outro, pois ela iniciou um processo inflamatório crônico e perigoso. Tive que me dedicar a ela por tempo integral e confesso que minhas dores da fibromialgia me consumiam, a ansiedade e exaustão foram ao limite máximo. Não tinha forças para escrever e contar como estou fazendo agora.
Como não tinha conhecimento desse assunto, simplesmente a levei ao hospital, lá teve crises de vômito que não cessava, seu fígado iniciou um processo de hepatite medicamentosa que demorou muito para os médicos entenderem. Chamaram ginecologitas, urologistas, psiquiatras, neurologistas. Precisou chegar à UTI para chamarem um hematologista por desconfiarem de Porfiria.
A porfiria refere-se a um grupo raro de distúrbios metabólicos e hereditários causados por uma deficiência ou mau funcionamento em uma das oito enzimas envolvidas na produção do heme.
O heme é um componente essencial da hemoglobina (a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta o oxigênio no sangue) e de diversas enzimas do fígado (como os citocromos). Quando uma das etapas da fabricação do heme falha, ocorre o acúmulo de substâncias intermediárias tóxicas chamadas porfirinas ou seus precursores (como ALA e PBG) nos tecidos do corpo.
Os Dois Tipos Principais de Porfiria
As porfirias são classificadas de acordo com os sintomas principais e os órgãos onde ocorre o acúmulo:
1. Porfirias Agudas (Neurológicas)
Atingem principalmente o sistema nervoso e manifestam-se em forma de "crises agudas" repentinas e intensas:
Sintomas principais: Dor abdominal súbita e extremamente forte, náuseas, vômitos, constipação severa, fraqueza muscular, dormência, picos de ansiedade, confusão mental ou convulsões.
Sinal característico: A urina pode mudar de cor ao ser exposta à luz, ficando avermelhada ou com tom de "vinho escuro" / xarope de cola.
Gatilhos de crise: Medicamentos específicos (como barbitúricos e certos anticonvulsivantes), jejum prolongado ou dietas de baixa caloria, consumo de álcool, estresse físico/emocional e oscilações hormonais sexuais (como variações no ciclo menstrual).
2. Porfirias Cutâneas (da Pele)
Atingem a pele e ocorrem por acúmulo de porfirinas que reagem à luz solar:
Sintomas principais: Fotossensibilidade extrema. A exposição ao sol provoca bolhas, feridas, fragilidade na pele, coceira, inchaço e cicatrização difícil nas áreas expostas (como mãos, rosto e braços).
A forma mais comum deste tipo é a Porfiria Cutânea Tarda (PCT).
Como é Feito o Diagnóstico e Tratamento?
Diagnóstico: É confirmado através de exames laboratoriais específicos que medem os níveis de porfirinas e precursores (ALA/PBG) no sangue, na urina ou nas fezes durante ou após as crises.
Tratamento: O objetivo do tratamento varia conforme o tipo de porfiria:
Nas crises agudas: Requer internamento para administração de glicose (que reduz a produção de porfirinas) ou hemina intravenosa, além do controle estrito da dor.
Prevenção: Identificar e evitar rigorosamente os gatilhos (medicamentos contraindicados, jejum, álcool e exposição solar direta, no caso dos tipos cutâneos).
O hematologista desconfiou da Porfiria Neurológica (aguda) por causa dos vômitos e iniciou aporte de glicose na veia. Inflamou suas veias e começaram a estourar, foi um sofrimento. Eu cheguei a ter minha disautonomia aflorada, quase desmaiava, nervosa, me sentia sozinha e ainda por cima, minha filha me tratava muito mal, estava abalada e soltava toda sua angústia em mim.
Como estava na UTI e pude ficar com ela por causa do autismo, de perto via seu sofrimento. Tinha que tomar antibióticos por causa da prevenção contra infecções hospitalares. Só que ela teve reações a um antibiótico ministrado, o ciprofloxacino, teve efeitos no Sistema Nervoso Central: pois pode causar tonturas, dores de cabeça, insónia ou, em casos mais raros, ansiedade e confusão.
Tentou o suicídio quando tive que sair para buscar roupas em casa e ver o meu outro filho autista para que o pai pudesse trabalhar um pouco. Nossa fiquei muito nervosa porque conversando com a médica, que suspendeu o antibiótico, a enfermeira deu mais uma dosagem porque se enganou e não leu o prontuário. Tive uma crise de nervosismo ao ver minha filha tremendo, vomitando, com ansiedade.
Que momentos angustiantes. Tive que demonstrar naturalidade a ela para que não ficasse mais estressada mas estava muito difícil de me controlar por tudo o que estava sentindo e tendo que segurar. Fora a preocupação com meu outro filho que tive que deixá-lo com meu marido, ao mesmo tempo que ele precisava trabalhar e não tínhamos com quem deixar. Por isso eu revezava e as vezes ela ficava sozinha no hospital. Mas estava preocupada de darem remédios errados, então tinha que voltar rapidamente e perguntar tudo o que davam para evitar novas crises.
Porfiria aguda intermitente - Sintomas, diagnóstico
Relação genética entre o sistema imunológico e o autismo
Neste novo hospital comecei a pesquisar um pouco sobre essa doença e entendi que muitos autistas podem desenvolver isso:
A relação entre o autismo (Transtorno do Espectro Autista - TEA) e a porfiria não é de causa e efeito direta — ou seja, a porfiria não "causa" o autismo, nem todo autista desenvolve porfiria. No entanto, a literatura médica e de neurodesenvolvimento estuda intersecções importantes entre ambas as condições:
Desregulação na Via de Síntese do Heme
A porfiria é caracterizada por falhas nas enzimas que produzem o heme (molécula essencial para transportar oxigênio e para o funcionamento das mitocôndrias).
Estudos na área de bioquímica metabólica apontam que uma parcela de indivíduos no espectro autista apresenta alterações no metabolismo das porfirinas e estresse oxidativo elevado. Quando a síntese do heme é prejudicada, pode ocorrer um acúmulo de metabólitos intermediários (como o ácido aminolevulínico - ALA), que possuem efeitos neurotóxicos.
Disfunção Mitocondrial e Estresse Oxidativo
Tanto o autismo quanto a porfiria compartilham elos com a função mitocondrial:
As primeiras etapas da produção do heme ocorrem dentro das mitocôndrias.
A proliferação de porfirinas ou o bloqueio enzimático gera estresse oxidativo, o que afeta o funcionamento neuronal e o processamento sensorial, características marcantes no TEA.
Sensibilidade a Fatores Ambientais e Medicamentos
A porfiria (especialmente os tipos agudos) é conhecida por ser engatilhada por estressores externos. Pessoas autistas frequentemente apresentam maior sensibilidade metabólica e imunológica a:
Estresse crônico e sobrecarga sensorial (que elevam o cortisol e desregulam o eixo metabólico);
Sensibilidade a certos medicamentos que utilizam as enzimas do fígado (citocromo P450, que depende do heme para funcionar);
Alterações na microbiota e na barreira intestinal;
Coexistência Genética e Diagnóstico Diferencial
Como o autismo possui uma base genética complexa e multissistêmica, variações genéticas que afetam rotas metabólicas ou a produção enzimática podem coexistir. Além disso, em crises agudas de porfiria, sintomas como dores abdominais severas, alterações de humor, ansiedade extrema e sensibilidade sensorial podem ser difíceis de diagnosticar em pessoas autistas (especialmente nas não verbais), sendo por vezes confundidos com crises de autorregulação (meltdowns).
Demorei para assimilar tudo pois estava em alto nível de estresse, tomei acetilcisteína também para me ajudar com a neuroproteção, não dormia bem e muito menos comia bem, pois comida de hospital é horrível. Fui aprendendo sobre o novo assunto e vivendo cada dia e tentando com todas as forças me autoregular para poder ajudar minha filha.


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